Em um livro que não lembro mais o nome, um livro sobre fenômenos inexplicados registrados mundo afora, um dia, eu li sobre um estranho caso. Vou contar aqui conforme recordo dos fatos ali relatados.
Era uma vez um tal de Mr, Scholtz. Mr. Sholtz era operário de uma fábrica têxtil. Quando aquilo aconteceu, ele tinha cerca de 50 anos. Naquela fábrica, trabalhara a vida toda. Qualquer um diria, e diziam, que Mr. Sholtz tinha uma vida muito chata.
Solteiro, ele morava em uma pequena casa vizinha à fábrica. A rotina não o incomodava. Todas as tardes, ele tinha uma hora de folga.
Nessas ocasiões, Mr Sholtz dirigia-se para casa, comia um sanduíche, bebia uma caneca de café na cozinha e então, religiosamente, dirigia-se a um modesto escritório, pegava um velho livro em uma estante pequena, sentava-se em sua confortável poltrona, móvel de qualidade, um dos poucos luxos que tinha e... abria o livro.
Mr Sholtz tinha uma empregada doméstica de meio período que fazia o serviço da casa duas vezes por semana e, a ela, Mr Sholtz havia recomendado um único cuidado:
- Sra., jamais, jamais! Toque naquela poltrona, jamais mude, um milímetro sequer minha poltrona de lugar, nem limpando nem não limpando. Não mova nunca essa poltrona, é melhor nem tocá-la e nunca, nunca abra a porta desse escritório quando eu estiver aqui, nunca, em nenhuma hipótese entre aqui enquanto eu aqui estiver.
O que ninguém suspeitava é que havia algo paranormal naquele hábito de leitura cultivado durante décadas. Na mesma poltrona, o mesmo livro.
Em seus cerca de 45 minutos de descanso naquele escritório, Sholtz, ao abrir o livro, em virtude de fenômeno que ele jamais pôde compreender, não lia: ele transcendia a realidade, o mundo, a dimensão física, a limitação do tempo.
O homem desaparecia fisicamente, sugado pelo livro em carne, ossos e sangue. Para onde ía Mr Scholtz? Ninguém sabe.
Mas, ele voltava, rigorosamente, um minuto antes da sirene de chamada da fábrica tocar. Ele retornava, regurgitado pelo livro, em sua inteireza, sentado em sua poltrona. Levantava, pegava o livro caído no chão, fechava e recolocava o volume no mesmo lugar.
Certa tarde, a sirene tocou mas, Sholtz não apareceu no galpão da fábrica. Demoraram um tanto a notar sua ausência mas, como não aparecesse, seus colegas finalmente perceberam e começaram a procurar. Por toda parte, chamaram seu nome. Em vão. Ninguém o tinha visto depois do intervalo.
Alguém lembrou que ele morava ao lado e para lá foram alguns colegas preocupados. Na porta da casa, foram recebidos pela empregada.
- Mr Sholtz? Está no escritório, eu acho... disse a mulher com um tom de voz hesitante, olhos baixos, mãos inquietas segurando o avental.
Ela mostrou a porta fechada. Sem hesitar, o supervisor de produção que ali estava, colocou a mão na maçaneta, girou e entrou no aposento. Não havia ninguém. A poltrona vazia, o estranho e velho livro caído, aberto, no chão, mostrava a ilustração de um lugar paradisíaco.
A empregada, temerosa, mas, sem conter a curiosidade, colocou a cabeça na entrada do escritório e, vendo o cenário, soltou um grito rouco.
- Meu Deus!
- Que foi mulher. Ela balbuciava palavras, visivelmente assustada.
- Fala, mulher! É um escritório, é só um escritório. Onde está Scholtz?
Finalmente, com lágrimas silenciosas deslizando na face, ela disse:
- Eu... eu mexi...
- Mexeu o quê, mulher?
- Eu... eu mexi a poltrona, foi só um esbarrão, eu juro, coloquei no lugar, eu acho, eu mexi a poltrona!
Mr. Scholtz nunca mais foi visto, Foram feitas diligentes investigações policiais, durante dias, publicadas reportagens em jornais, fotografias foram coladas nos postes da cidade... Tudo inútil.
Passaram-se os anos, o incidente caiu no esquecimento. Não houve qualquer notícia. Os móveis foram leiloados, os livros, doados, a casa, vendida e demolida.
Mas, o quê poderia explicar esse fenômeno tão estranho? Aqui recorremos à idéia de portais dimensionais. Mesmo sem conhecer o conceito, Mr. Sholtz, pode ter encontrado um deles.
Naquele lugar inesperado, naquele escritório modesto, havia uma pequena e bem definida área anômala de transcendência.
A leitura o colocava em um estado mental propício e assim, todos dias, naquela mesma hora, no mesmo local, Sholtz era transportado para um lugar e uma situação muito distante da monotonia dos seus dias sempre iguais, distante das atividades repetitivas da fábrica.
Desse modo, pela convergência de fatores metafísicos, o extraordinário acontecia e a única certeza que Sholtz possuía, talvez por algum incidente fortuito, sim, ele sabia: aquela poltrona jamais poderia ter sua exata localização alterada sob pena de fechar para sempre a porta que lhe permitia acessar um outro mundo, uma outra vida e talvez, um outro Sholtz, mais feliz do que ele jamais poderia ser na realidade dos seus dias na Terra.
Esse é um caso de Realidade Fantástica
por Lygia Cabus
maio, 2026



