segunda-feira, 30 de julho de 2012

Os Mistérios da Porta da Bruxa


O catálogo do Museu onde encontra-se uma descrição e texto informativo sobre A Porta da Bruxa


ESPANHA. Murcia é uma cidade da Espanha. O Museo de Bellas Artes de Murcia possui muitos tesouros admiráveis. Porém, entre as relíquias que abriga, uma em especial destaca-se por sua história mística: é a porta da bruxa Mari Chaves.

É uma peça estranha e pouco conhecida até mesmo para moradores habitantes de Murcia. O catálogo do Museu descreve este portão (porque, na verdade, é um portão) como datado do século XVI (anos de 1500) que ...pertenceu a Mari Chaves, uma suposta bruxa, portuguesa de origem judaica... que, apanhada pela Inquisição, morreu na fogueira juntamente com seus irmãos, identificados como Rafael e Jerônimo Melo. 

Assim, ao que tudo indica, o portão da bruxa foi herdado por ela tendo sido, todavia, confeccionado em um tempo muito anterior à época em que ela viveu.


A PORTA - ELFOS, HARPIAS & SÁTIROS

A peça, em madeira folha dupla, está tão bem preservada,intacta, como no dia em que foi esculpida. Esculpida, sim, porque, divida em quadrados é coberta de símbolos misteriosos cuja origem é variadíssima. 

São imagens que pertencem desde antiguidade oriental persa, greco-romana, judaico-cristã, à cultura dos bestiários medievais mais antigos, passando pela iconografia renascentista e muitos outros que jamais foram identificados. 

Ali estão representados leões, tigres, linces em figuras retorcidas em meio à bestas fantásticas, cornos (chifres) e vísceras, estranhos ginastas, seres híbridos meio animais, meio homens, meio plantas.

No artigo, Aproximación a la Lectura Iconográfica de la Puerta de Mari Chaves (1989), María Angeles Gutiérrez Garcia faz um estudo aprofundado da peça identificando uma multidão de criaturas míticas ali esculpidas: elfos, duendes, grifos, harpias, o deus grego Zeus, a figura do Louco do baralho ou livro divinatório chamado Taro (ou Tarô) e até um dos cavaleiros do Apocalipse.




A história dessa porta durante os últimos dois séculos passados está bem documentada. A primeira referência escrita, impressa, sobre ela é de 31 de julho de 1868 (acima). Ela apareceu, instalada no prédio defronte ao Museu, na Plaza de Santa Catalina durante a Exposición de Bellas Artes e Retrospectiva de Artes Suntuárias que foi organizada pela Comissión Provincial de Monumentos.

Em 1910, com a inauguração do Museo de Bellas Artes de Murcia, a porta foi transferida passando a fazer parte do acervo do Museo. Todavia, ela só aparece nos inventários da instituição em 1973.

Além desses dados, tudo o que se sabe é confuso. No livro Historia y Guia del Museo de Murcia, de J. Matinez Calvo (1986) está escrito: ...a porta vem da casa da bruxa (mais precisamente identificada como pitonisa) Mari Chaves... (localizada) entre as ruas de Santa Catalina e Platería.


A BRUXA

A lendária Mari Chaves protagonizou um dos julgamentos mais famosos da Inquisição em Murcia durante o século XVIII (anos de 1700). Seu nome completo, supõe-se - era Maria Gomes Chaves. Foi um longo processo. 

Ela entrou para a lista negra do Santo Ofício em 1682. No livro La Otra Murcia del Siglo XVIII, Juan Garcia Abellan relata que em novembro de 1724 Mari foi executada sob as acusações de ...Blasfema, impenitente, reincidente e persistente... (nas práticas de bruxaria e contatos com o demônio).

A data da execução é controversa. Outros documentos apontam anos diferentes: na revista Efemérides (1924) consta que os irmãos (Mari e Jerônimo) foram ...queimados junto ao Moinho de Las Coronas... em 17 de maio de 1722. Rafael Melo teria sido condenado antes, no início do processo. 

Depois da morte do irmão, em uma segunda instância do inquérito, Jerônimo Melo, farmaceutico de profissão, depois de sofrer indizíveis fenômenos, ainda foi poupado. Mas enquanto era conduzido pelas ruas cumprindo sua pena amenizada de exposição pública, alguém jogou uma corda em seu pescoço e ele, pensando que estava sendo assassinado, confessou sua fé judaica. 

Foi o bastante. O processo foi reaberto e desta vez, ele foi condenado à fogueira acusado de ser ...herege judaizante, teimoso, proterbo, blasfemo...

O Tribunal da Inquisição em Murcia era um dos mais temidos do período. Um provérbio popular dizia: Quatro coisas existem em Murcias e delas três, livre-me Deus: o hospital, a prisão e a Santa Inquisição

De fato, ali, a Santa Inquisição promoveu verdadeiras execuções em massa. Dessas, as mais famosas incluem as execuções de: 12 de fevereiro de 1559, quando 30 foram para as fogueiras; 15 de março de 1562, 23 condenados.

FONTE: BOTIAS, Antonio. La puerta infernal de la bruja Mari Chaves.
LA VERDAD/Espanha, publicado em 29/07/2012.
[http://www.laverdad.es/murcia/v/20120729/murcia/puerta-infernal-bruja-mari-20120729.html]

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